domingo, 19 de setembro de 2010

Ela nunca olhou para mim


Sérgio chegou ao trabalho no horário de sempre. Assinou o ponto e foi catalogar obras raras.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, de dois minúsculos orifícios da nuca da mestranda em Antropologia pingava um líquido viscoso, vermelho. O banco do carro já estava encharcado. Percebia-se imediatamente o contraste da pele alva da moça com a cor escura do sangue.

– Sérgio, você está sem luvas, obras raras pedem luvas! – alertou uma colega que também catalogava.

– É verdade, desculpe – disse Sérgio, olhando para suas pequenas mãos sem luvas.

Livros antigos, já catalogados, eram colocados na estante própria.

Hora do almoço. Carne vermelha, salada, arroz branco e água com gás.

Três horas depois, um policial de voz grave, que segurava o crachá com foto do bibliotecário, indaga à moça do balcão: – É aqui que trabalha o dono deste crachá danificado?

– É aqui, sim. Algum problema? – perguntou a moça.

Sérgio saiu de trás da estante de Literatura Inglesa e disse: – Ela nunca me olhava nos olhos. Nas quartas-feiras, eu separava para ela os melhores livros antigos de etnologia. Ela estava obcecada por problemas étnicos. Só falava de quilombolas, tribos autóctones, caboclos e mestiços. Nem assim ela me olhava nos olhos. Eu só queria que ela me visse. Queria que ela falasse algo além de: – Muito obrigada, moço. Você é muito gentil.

Eu a amava, mas ela nunca quis saber o meu nome.

- O que você fez? O que você fez? – perguntou, aterrorizada, sua colega de ofício.

- Eu acabei com a moça da dissertação sobre a obra de Nina Rodrigues - respondeu Sérgio, oferecendo os pulsos ao policial, que segurava aquele surrado crachá.

Sérgio havia anotado, no dia anterior, quarta-feira, os dados cadastrais da mestranda, no Setor Administrativo da Biblioteca Municipal. Ele foi até seu endereço e escondeu-se no jardim da casa vizinha. Quando a estudante chegou e estacionou seu carro, Sérgio, do lado da janela, colocou a arma em frente ao rosto da moça e deu-lhe dois tiros nos olhos. Sérgio não havia percebido que seu crachá havia caído no chão.

Agora, algemado, o funcionário da Biblioteca Municipal sentia-se aliviado.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

DESCULPE, ELE VEIO SENTAR NO JARDIM

Desde sempre, sou boa no que faço. É o meu trabalho. E sei que sempre será.

Mas eu não tive culpa, pequena Elli. Eu estava aproveitando o sol.

Pude ver quando Benny beijou sua mãe e saiu. Eu estava sentada na grama verde.

Seu pai usava tênis, camiseta e jeans. Agneta ainda estava de pijama. Eu podia sentir o aroma do café que vinha da xícara que sua mãe segurava, Elli.

Benny saiu pela porta da frente, beijou Agneta, entrou no carro, mas resolveu não partir. Voltou ao jardim. Não me importei. Eu não trabalho o tempo todo. Ele veio até mim. Não pude evitar. Não pude.

Elli, eu sei que você já vai à escola, que tem um cãozinho chamado Marvin e é alérgica a chocolate. Sei, também, que Agneta, sua mãe, gosta de cuidar do jardim. Eu sei de muitas coisas sobre muitas pessoas. Faz parte do meu ofício. Mas, naquela manhã, eu só estava aproveitando o sol.

Eu não sou má, Elli, mas dizem que sou necessária.

Benny partiu, mas eu não tive culpa.

Seu cabelo e as flores do jardim de Agneta fazem-me bem. Não me odeie. Não tenha medo de mim.

Sou a morte, mas, naquela manhã de verão, eu estava apenas sentada na grama aproveitando o sol.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Encontros na terra do Rei

O telefone toca

Ele chegou


Encontram-se

Ele de azul

Ela de branco

Café


No dia seguinte...

Jantar

Vinho tinto

Charuto? Não

Saquê

Risadas

Beijos proibidos

Despedida

Sem culpa


Reunião

Hotel

Presentes

Mais beijos proibidos

Jantar

Cama

Descanso

Beijos de despedida


Reunião, mais uma

Telefonema

Táxi

Jantar

Hotel

Beijos

Delicioso cheiro de nada

Cama de solteiro

Loucura

Despedida


Outra reunião

Mais telefonema

Outro táxi

Jantar

Mais beijos proibidos – Que se dane

Vinho... no corpo

Espelho

Cama, outra vez de solteiro

Conversa. Segredos

Abraços

Descanso

Despedida


Saudade

Mas vai passar

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Ano novo, blog novo

Hoje, ao som de Boss Ac e comendo banana frita - ah, como eu gosto de banana frita! -, resolvi ressuscitar meu blog, que foi criado há mais ou menos cinco meses e morreu um mês depois, porque eu, idiotamente, esqueci sua senha. Ele tinha recebido o nome de Mosaico Imperfeito e nele só postei duas vezes.

Ano novo, nome de blog novo: enquanto escrevo, penso num nome qualquer. Depois do nome escolhido, me cadastrarei novamente no blogspot, criarei uma senha, que será anotada para que não seja esquecida (vai ser difícil) e copiarei os dois posts do finado Mosaico Imperfeito, para colar no novo blog. Assim, ele nascerá com, no mínimo, 3 posts. Isso é muito para quem não consegue decorar uma simples senhazinha...

Pois bem, se alguém ler estas linhas, aqui está o terceiro post. Para mim, isso quer dizer muita coisa, uma vez que – confesso – eu estava com um pouco de preguiça de reviver o falecido. Mas eu venci esse pecado capital.

Bom, acho que é isso: tenho um novo blog!

PARA QUÊ O AMOR ACABA

Li a crônica O amor acaba, do escritor mineiro Paulo Mendes Campos e, como uma amiga já a tinha lido, pude discutir com ela a questão dos fins dos relacionamentos amorosos. Para que melhor seja compreendida a questão, transcrevo a crônica:

“O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.”

A questão colocada por minha amiga foi a seguinte: “Quando o amor começa?”.
Tentei ser sucinta na minha resposta. Não consegui: “Sei lá... Na primeira troca de olhares, na percepção do cheiro característico do outro, no primeiro toque, num gesto bobo, no primeiro beijo. O amor vem de qualquer jeito. Com qualquer roupa. Sem avisar.
Ficamos totalmente inebriados. Tudo fica azul, mais intenso. Suspiramos várias vezes ao dia. Basta fecharmos os olhos e, em menos de um segundo, o ser amado aparece em nossa imaginação, com todo o seu encanto.
Viagens perfeitas, leituras a dois, canções (existe sempre a nossa música), e-mails e telefonemas. O cabelo muda, a pele também. Temos sempre um brilho no olhar. Vamos até à beira do abismo, de olhos fechados, buscar a mais linda flor.
Horas, dias, meses, anos juntos. Várias apresentações a amigos, natais e aniversários juntos. Dedicamo-nos à escolha do melhor presente. Um simples resfriado do ser amado corta o coração.
Confiamos, acreditamos. Amamos”.
Minha amiga olhou-me com os olhos arregalados e, às gargalhadas, devolveu-me: ”Atinge-se o ponto ótimo e o amor acaba? Explique-me isso, Roberta, por favor”.
Não expliquei de imediato, mas agora tento: “Amiga, o amor acaba para mudar de roupa. Acaba para que a nossa música passe a ser outra, para que venham outros cheiros, para que venham presentes mais significativos – que nem sempre são os mais caros – e, principalmente, para que ele, o amor, seja lembrado como algo que sempre vale a pena, “(...) quando a alma não é pequena”.

Meu blog

Meu nome é Roberta Christian.
Sou uma virginiana, com todas as dores e prazeres que só os virginianos podem sentir. Tenho 28 anos. Com cara de 22, que fique bem claro!
Este é o meu blog. Por que ter um blog? Não sei.
Nasci na linda, quente e amada Manaus, mas moro em Brasília, desde 2004.
Gosto do silêncio, do humano, música, literatura, orquídeas, sorvete de creme, melão, chocolate, pão de queijo, desenho animado, peixe frito, cozido e assado; gosto de scarpin, massagem, creme hidratante, banho demorado, perfume francês, beijo na boca, olho no olho, dormir de conchinha, bom humor e viagens. Gosto de discutir questões políticas e econômicas, não tenho nada contra a democracia e quase nada contra a Nova Ordem Mundial e a Globalização.
Não pratico esportes, por pura preguiça. Não bebo, não fumo, não uso drogas. Sou careta e orgulho-me disso.
Escrevo só o que quero e quando quero. Cada texto leva um bom tempo para ser escrito e pode não dizer nada para alguém, além de mim mesma. Como disse, o blog é meu.