Sérgio chegou ao trabalho no horário de sempre. Assinou o ponto e foi catalogar obras raras.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, de dois minúsculos orifícios da nuca da mestranda em Antropologia pingava um líquido viscoso, vermelho. O banco do carro já estava encharcado. Percebia-se imediatamente o contraste da pele alva da moça com a cor escura do sangue.
– Sérgio, você está sem luvas, obras raras pedem luvas! – alertou uma colega que também catalogava.
– É verdade, desculpe – disse Sérgio, olhando para suas pequenas mãos sem luvas.
Livros antigos, já catalogados, eram colocados na estante própria.
Hora do almoço. Carne vermelha, salada, arroz branco e água com gás.
Três horas depois, um policial de voz grave, que segurava o crachá com foto do bibliotecário, indaga à moça do balcão: – É aqui que trabalha o dono deste crachá danificado?
– É aqui, sim. Algum problema? – perguntou a moça.
Sérgio saiu de trás da estante de Literatura Inglesa e disse: – Ela nunca me olhava nos olhos. Nas quartas-feiras, eu separava para ela os melhores livros antigos de etnologia. Ela estava obcecada por problemas étnicos. Só falava de quilombolas, tribos autóctones, caboclos e mestiços. Nem assim ela me olhava nos olhos. Eu só queria que ela me visse. Queria que ela falasse algo além de: – Muito obrigada, moço. Você é muito gentil.
Eu a amava, mas ela nunca quis saber o meu nome.
- O que você fez? O que você fez? – perguntou, aterrorizada, sua colega de ofício.
- Eu acabei com a moça da dissertação sobre a obra de Nina Rodrigues - respondeu Sérgio, oferecendo os pulsos ao policial, que segurava aquele surrado crachá.
Sérgio havia anotado, no dia anterior, quarta-feira, os dados cadastrais da mestranda, no Setor Administrativo da Biblioteca Municipal. Ele foi até seu endereço e escondeu-se no jardim da casa vizinha. Quando a estudante chegou e estacionou seu carro, Sérgio, do lado da janela, colocou a arma em frente ao rosto da moça e deu-lhe dois tiros nos olhos. Sérgio não havia percebido que seu crachá havia caído no chão.
Agora, algemado, o funcionário da Biblioteca Municipal sentia-se aliviado.